Somos donas do nosso corpo e senhoras das nossas vidas

por Sulamita Esteliam

Marcha das Margaridas 2007 - foto Contag, editada pelo A Tal Mineira

O seu corpo é seu, ninguém toca sem a sua permissão. Sua vida é sua, e só a você cabe  conduzi-la. Eis a primeira lição que mães e pais deveriam ensinar às filhas, e aos filhos também. Talvez, fosse conveniente acrescentar: faça bom uso. Se a cabeça é sua sentença, significa que você é a primeira pessoa a ter de cumpri-la – para o bem ou para o mal.

Hoje é Dia Internacional da Mulher, então falemos de mulheres. Antes, situemos o porquê da data. Nasceu da luta das mulheres socialistas, na II Conferência, em 1910. Há pouco mais de 100 anos, portanto. Mas, o 08 de Março como data fixa para se comemorar foi definido em 1921, na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas – a terceira. Homenagem às mulheres de São Petersburgo, costureiras que, em 1817, fizeram greve geral por pão e paz,  a partir de 08 de março – e desencadearam a Revolução Russa.

Lições do Núcleo Piratininga de Comunicação – num artigo de fôlego, do amigo Vito Giannotti, escrito em 2004 – transformado em cartilha. E que disseca mitos e todas as idas e vindas históricas, e as nuances ideológicas à direita e à esquerda  dessa data - aqui.

Vermelho, sítio do PCdoB, traz o resumo da ópera e, de quebra, a programação completa das atividades em Belo Horizonte. Como em várias capitais do país, haverá ato unificado dos movimentos sociais feministas, e, naturalmente, passeata. Concentração a partir das 13:00, na Praça da Assembleia Legislativa.

No Recife, também, o ato é unificado, por liberdade e autonomia. E bem ao estilo pernambucano, vai direto ao ponto: Nossos corpos nos pertencem. A partir das 15:00, na Praça do Diário, no Bairro de Santo Antônio, área central da cidade. Uma Tribuna de Mulheres garante espaço para se apresentar as reivindicações. E uma “instalação” de mulheres com os corpos pintados define os significados de liberdade e autonomia.

Em João Pessoa, na Paraíba, o ato acontece pela manhã, a partir das 7:00, no parque Solon Lucena -Lagoa, Centro. O mote, como no Recife, é claro e conciso: Nosso Corpo, Nosso Território. Dia 12, novo ato político, desta vez, na pequena Queimadas, cidade próxima a Campina Grande. Foi lá que sete mulheres foram “oferecidas” pelo irmão “como presente de aniversário” a um rapaz. Foram violadas coletivamente, e duas delas, Michele e Isabella, assassinadas por terem reconhecido seus estupradores.

Não consegui digerir a aberração para escrever a respeito, mas a amiga Mabel Dias o fez. Está em seu blogue, Senhora das Palavras, aqui.

Marcha das Vadias no Recife, 2011 - foto capturada na página do evento no Facebook

É consenso entre as organizações de mulheres “a necessidade de enfrentar os ataques à dignidade feminina”. O “feminicídio” de Queimadas -nas palavras de Mabel – é apenas um dentre vários abusos, infelizmente.

A lista é longa e aviltante. No Recife, o SOS Corpo e o Fórum de Mulheres de Pernambuco enumeram: controle do corpo pelo Estado -MP 557, que propõe o cadastro obrigatório de gestantes, entendido como vigilância; violação masculina por meio da violência sexual – estupro via satélite no BBB 12; estupro coletivo na Paraíba; mercantilização e exploração do corpo das mulheres pela medicina estética, pela pornografia e pela propaganda – esta até o Conar, orgão que pretensamente regula a publicidade, reconhece a orgia. E há a revisão do Código Penal que preocupa sobre o tratamento sobre o aborto no capítulo dos crimes contra a vida. Dentre outras.

Ainda morremos de parto -principalmente as mulheres negras, nesta Terra Brasilis. Temos uma presidenta da República, 10 ministras, algumas governadoras e prefeitas, mas somos minoria nos parlamentos e nos cargos de direção – mais aqui do que acolá. Mesmo em sindicatos do campo dito progressista.

E as negras (pretas e pardas) são mais minoria que as outras: em São Paulo, nossa megalópole pós-moderna, apenas 4,2% das mulheres negras ocupam cargos de chefia, contra 15,7% de não-negras. E, se recebemos menos em funções idênticas às dos homens, o salário pago às negras é quase a metade do que recebem as demais e os homens negros – R$ 494 a R$ 896 e R$ 756, respectivamente. Os dados são do Dieese, relativos a 2011.

Mas nem tudo é tragédia e indignidade. Somos maioria nas universidades, aqui e alhures, por exemplo. Minha amiga pernambucana, Ana Veloso, jornalista e professora do melhor calibre, postou no Facebook: o número de matrículas de mulheres nas universidades em todo o mundo aumentou sete vezes desde 1970 – o aumento de homens no curso superior, no mesmo período, foi de quatro vezes.

Palavra do Banco Mundial, que, com propriedade, considera o fato “uma extraordinária reviravolta nos padrões históricos”.

O caminho é longo, e no meio tem várias pedras, mas chegaremos lá. Viva nós!

E viva minha querida sobrinha de coração, Flávia, que faz aniversário justo hoje.

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PS 1: Ontem não consegui postar no blogue. Minha casa estava requerendo minhas mãos, e coloquei-as em obra: 10 horas de faxina, sem medo de ser feliz. Afinal, não poderia deixar a tarefa para o 08 de Março, não é verdade?

PS2: Todas as vezes que escrevo sobre o Dia Internacional da Mulher, me vem à lembrança um 08 de Março nos idos de 1992. Trabalhava como produtora/repórter de economia para a extinta TV Manchete, em Brasília. E eis que recebo, no comitê de imprensa do Ministério da Fazenda, um buquê com duas dúzias de rosas amarelas e uma vermelha ao centro.

Alvoroço total entre coleguinhas, homens e mulheres. Mas o melhor foi o cartão que acompanhava as flores. Dizia:

“Olá, garota! Não comemore. Enquanto as mulheres tiverem que ter um dia, é sinal de que a desigualdade se faz presente. Amo você. Bjm.”

Esse é o meu companheiro. Já não recebo flores, mas continuo merecendo dele o tratamento de “garota”.

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Revista e atualizada às 11:28.

Sobre A Tal Mineira

Jornalista e escritora, passei por várias redações de jornais, revistas e emissoras de TV, quase sempre nas áreas de economia e política. Pulei o muro e levei a experiência na velha mídia para a comunicação popular e sindical, com breves incursões em assessorias ao poder público. O primeiro livro publiquei em 1998, numa dobradinha Vozes-Prefeitura de Belo Horizonte - sorte de principiante: Estação Ferrugem é um romance-reportagem, ambientado na região operária de Beagá-Contagem, na confluência das quais cresci e tornei-me quem sou. Há dois outros inéditos: Em Nome da Filha, no mesmo gênero, sobre violência contra a mulher em Pernambuco, e o infantil Pra que Serve um Irmão. Vim ao mundo em Caetanópolis, nos domínios do Tabuleiro Grande roseano, em meio à festa de emancipação. Ali germinou minha árvore familiar. A mesma terra de Clara Nunes, a mineira guerreira que inspira este blogue, nascida no ainda Cedro, que então era distrito de Paraopeba, onde foi registrada. Meu registro se deu onde moravam meus pais, e onde frutifiquei, na capital da província. Morei em Brasília, Fortaleza e me apaixonei por Recife, onde resido há quase década e meia. Sou, praticamente, uma mineiribucana ou, quiçá, pernambeira.
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2 respostas para Somos donas do nosso corpo e senhoras das nossas vidas

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